Criação da Paróquia
Pelo seu “Decreto sobre a atualização das Paróquias” de 24 de Novembro de 1960 e que entrou em vigor a 1 de Janeiro de 1961, Dom David de Sousa, Bispo da Diocese do Funchal, criou as 50 actuais novas paróquias.
Onze destas novas paróquias estão situadas ao longo da meia encosta do anfiteatro do Funchal. A nova paróquia do Livramento, no sítio do Livramento, freguesia do Monte, é uma destas paróquias e, tal como elas, salvo alguma excepção, foi elevada a paróquia a partir duma capela já existente e que lhe deu a primeira sede paroquial e o respectivo Orago.
A paróquia do Livramento teve pois a mesma origem e seguiu o mesmo percurso histórico de formação das freguesias e paróquias anteriores desde os primeiros tempos da descoberta e do povoamento. Na verdade, foi a partir da primeira e primitiva Igreja de Nossa Senhora da Conceição e freguesia da Sé que se formaram, por desmembramento, as outras freguesias e paróquias do anfiteatro do Funchal, tendo, como sedes e Oragos, primitivas capelas que os povoadores fundavam em suas terras. Assim lemos no Elucidário Madeirense: nas “terras circunvizinhas ao primeiro núcleo de população que se formou no Funchal… (foram) organizadas diversas fazendas povoadas, com suas capelas privativas que deram origem às novas e futuras paróquias.“
Sede provisória e Orago
A primitiva capela da invocação de Nª Srª do Livramento, da qual recebeu o nome o sítio do Livramento, freguesia do Monte, onde actualmente está situada, foi mandada construir por Inácio Ferreira Pinto e sua mulher Catarina de Góis Maldo, “na sua quinta da Ribeira de João Gomes” em 1684. Na escritura da fundação da capela também se lê “Nossa Senhora do Livramento da Ribeira de João Gomes“. Do mesmo modo, a invocação de Nª Srª do Livramento teria sido escolhida pelo seu fundador precisamente para que a Senhora do Livramento fosse remédio e solução para todos os moradores daquele lugar que tinham de enfrentar os perigos da Ribeira de João Gomes.
Assim lemos no documento da fundação da capela, existente no Arquivo Histórico da Diocese do Funchal: “Que não querem que se extinga nem acabe esta obrigação por modo algum porquanto o instituem… por verem os moradores daquela ribeira não ouvir missa… por razão da sua paróquia ser distante e de inverno a ribeira cheia e caminhos ariscos.” Daqui se deve concluir que a primitiva capela ficava na margem esquerda da Ribeira de João Gomes. Como se afirma no Elucidário Madeirense e nos Subsídios para a História da Diocese do Funchal, do Pe. Fernando Augusto da Silva, a capela do Livramento era de instituição vincular, assim como a sua reconstrução, um século mais tarde, por José Bettencourt de Freitas, “em terras vinculadas de que era administrador.” As terras e bens, à volta da capela, pertenciam pois ao dote da capela e não podiam ser alienadas. Aos últimos proprietários desta capela, a família Mimoso Aragão, o ex-presidente da antiga Junta Geral, o Dr. João Figueira de Freitas por parte de sua esposa, Dona Maria Pilar Mimoso Aragão, João Mimoso Aragão e Dona Maria Pilar, actual proprietária, é devida uma palavra de apreço e gratidão da Diocese do Funchal e do povo do Livramento, por terem facultado a capela para sede provisória da nova Paróquia.
Os Párocos do Livramento e a Construção da Nova Igreja
Não se poderá negar sem injustiça e ingratidão a grande Fé em Deus e a dedicação total da Diocese do Funchal a favor do bem espiritual do nosso povo, com a construção destas novas igrejas, a começar pelo seu responsável máximo, o nosso actual Bispo do Funchal e também de todos os seus novos Párocos, dum modo especial os Párocos do Livramento, na construção desta igreja.
Na verdade, se o anterior Bispo, Dom David de Sousa foi o criador das novas paróquias, o seu sucessor, Dom Teodoro de Faria, foi o grande impulsionador das mesmas, envidando todos os esforços para que essas tivessem sedes definitivas e dignas. Recordemos por agora as do anfiteatro do Funchal em cujo centro se situa a do Livramento: Nazaré, Santo Amaro, Graça, Álamos e Livramento. No que diz respeito aos Párocos, esta Fé e dedicação por Deus e pelo povo do Livramento, estão presentes desde o início, pois todos se esforçaram muito para levarem a bom termo a construção da nova igreja, se bem que o mérito da edificação, desde o lançamento da primeira pedra até a sua conclusão pertença ao (…)Pe. João Humberto de Vasconcelos Mendonça.
A paróquia do Livramento teve até ao presente seis Párocos que, por ordem cronológica são; o primeiro, Pe. Manuel Alzirino de Abreu, Pe. Manuel Mota Pereira, Pe. Aires dos Passos Vieira. Novamente Pe. Alzirino, Pe. Agostinho Rafael Carvalho, Pe. José Tolentino Calaça de Mendonça, Pe. João Humberto de Vasconcelos Mendonça, [Pe. João Carlos da Costa Gomes e atualmente, Pe. Johnny Sé Aguiar].
A principal missão e problema que desde o início se colocou a todos estes Párocos do Livramento foi a construção da nova igreja como sede definitiva e em terreno próprio. Tal missão teria sido muito mais simplificada se os terrenos à volta da capela não tivessem sido vendidos pelos seus proprietários, o Dr. João Figueira de Freitas, apesar de, como vimos antes, a capela com os terrenos à sua volta que lhe serviam de dote, em Escritura lavrada em notário e com compromisso perpétuo, ser de instituição vincular e portanto não poderem ser alienados. Certamente por desconhecerem o teor da Escritura da fundação da capela, conservada no Arquivo Histórico da Diocese do Funchal.
O Pe. Aires dos Passos Vieira, junto com a respectiva Comissão de Obras, adquiriu um primeiro terreno e no tempo do Pe. Alzirino, aquando do seu regresso à paróquia do Livramento, foi feito também um primeiro projecto. Este foi posteriormente abandonado por o terreno ter sido considerado diminuto para a construção duma sede paroquial.
A entrada do Pe. Agostinho Rafael Carvalho trouxe novos progressos e iniciativas. Juntamente com uma Comissão de Obras, o Pe. Carvalho ambicionou uma igreja mais grandiosa, encarregou o arquitecto Luís Jorge Santos do respectivo projecto e envidou os maiores esforços junto das entidades oficiais para disponibilizarem o terreno para a construção da nova Igreja e de um centro social paroquial, conseguindo-se um terreno com uma área de 9.000 m2. Foi ainda no tempo do Pe. Carvalho que foi benzida a primeira pedra da futura igreja, nos Barreiros, pelo Papa [São] João Paulo II, aquando da sua visita à Madeira.
Mas só com a entrada do Pe. João Humberto de Vasconcelos Mendonça, juntamente com a Comissão de Obras, é que se procedeu à realização desse novo projecto desde o lançamento da primeira pedra, em Dezembro de 1997, até à sua conclusão como vemos hoje.
No dia 8 de Dezembro de 2003, igualmente com a presença de Sua Excelência o Senhor Bispo Dom Teodoro e das Autoridades da Região, procedeu-se à bênção do carrilhão desta igreja, constituído por 14 sinos, sendo 11 para representarem os sítios da paróquia, cada um marcado com o respectivo nome do sítio. O maior, com o nome do Papa e do Bispo, do pároco e do vice-presidente da Comissão de Obras, respectivamente.
Mas, para além dos sinos no exterior, também o interior da nova igreja foi objecto de muito empenho e cuidadosamente enriquecido de belas obras de arte, provenientes de Espanha: a imagem de Nossa Senhora do Livramento, a imagem do Sagrado Coração de Jesus, o Crucifixo do altar-mor, o painel de azulejos da capela baptismal e capela de Nª Senhora, e o mosaico em honra de Nª Senhora.
A comunidade paroquial do Livramento, na alegria desta data solene, da dedicação da sua nova igreja, recorda e agradece reconhecidamente toda a colaboração do Governo Regional, principalmente o seu Presidente, Dr. Alberto João Jardim, que através de protocolos realizados, apoiou assim o esforço do povo do Livramento ao longo destes 40 anos.
Seja pois este um dia de festa, um dia que “o Senhor fez” e Nª Srª do Livramento nos trouxe. A nós que também fomos ungidos com o óleo da alegria no nosso Baptismo e no Crisma, não nos convém, por motivo algum, odiar alguém, julgar das intenções das pessoas ou fechar o nosso coração a Deus. Que hoje a alegria de podermos honrar a Deus e a Senhora do Livramento domine o nosso coração e seja um dia de festa para todos, como nos recomenda a Liturgia da bênção do óleo sagrado dos Sacramentos: “Sit haec dies festa nobis“, seja este um dia de festa para nós!
Pe. Orlando Moisés de Freitas
(Adaptado do texto apresentado no livro da Dedicação da Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Livramento)
